Quando começámos a planear esta edição, pensámos em chamar-lhe «o regresso da prática curta». Depois de meses a ouvir professoras de bairro, a sentar-nos em estúdios de Lisboa, Porto, Coimbra e Évora, e a falar com leitores que praticam em apartamentos de cinquenta metros quadrados, percebemos que não há regresso: o que existe é uma reorganização tranquila. A yoga que se vê hoje no país é menos performativa, menos turística, menos espelhada na California dos anos 2000. Tornou-se outra vez aquilo que sempre foi, antes do mercado a transformar em produto: um exercício de presença, repetido em pedaços pequenos, ao longo do dia.
Esta edição é, portanto, uma tentativa de retrato. Não procurámos heróis, nem teachers-influencers, nem fórmulas que prometam acordar o corpo em três semanas. Procurámos pessoas que pegam num tapete antes do café, ou ao fim da tarde, antes de ir buscar os filhos à escola, e fazem cinco posturas. Procurámos professoras que reduziram as suas turmas para grupos de seis. Procurámos editores que voltaram a escrever sobre respiração porque a respiração é, de novo, o assunto mais editorial que se pode imaginar — pequeno, fundamental, repetido, mal compreendido.
No texto que se segue, alternamos seis ensaios curtos com cartas da nossa redação. Não há tabelas, não há percentagens, não há antes-e-depois. Há observação demorada. A nossa hipótese de trabalho é simples: a prática voltou a ser quotidiana porque deixou de tentar ser excecional. E essa é, talvez, a melhor notícia que podemos abrir nesta primeira página.
O estúdio de bairro como redação
Em Campo de Ourique, num primeiro andar com chão de pinho, a Inês Salgado abriu, há dois anos, um espaço com nove mats. Quando lhe pedimos para descrever o que faz, hesita. «Não sou empresária», diz. «Sou alguém que organiza encontros à volta de uma prática.» Os horários são curtos: aulas de quarenta minutos antes do trabalho, aulas de cinquenta no final do dia, sábados de manhã para quem nunca pisou um tapete. Não há plano anual, não há pacote, não há fotografia em grande angular nas redes sociais.
O modelo repete-se. Encontramos estúdios assim em Coimbra, num beco perto da Praça do Comércio, e no Porto, numa antiga oficina de relógios em Cedofeita. Todos têm em comum uma escolha editorial — porque escolher seis pessoas por turma é uma escolha editorial — e a recusa em transformar a prática num produto que se possa comprar em pacote de dez. A yoga voltou, neste sentido, ao formato de revista pequena: dirigida, criteriosa, sem pressa.
Quarenta minutos não são pouco
Um dos lugares-comuns que esta edição quis desmontar é o da «aula a sério». Durante anos, a indústria sugeriu que uma prática válida durava noventa minutos e exigia transpiração visível. As professoras com quem falámos discordam, com sotaques diferentes. «Preferia que os meus alunos viessem três vezes por semana, quarenta minutos cada vez, do que uma vez por semana durante hora e meia», diz Margarida Salavisa, que ensina há dezasseis anos em Lisboa. «Repetição é tudo. A duração é só o palco.»
O que acontece em quarenta minutos é, na nossa observação, mais consistente: uma chegada lenta, dez minutos a libertar quadris e ombros, cinco a oito posturas de pé, um trabalho deitado, três minutos de descanso. A aula não tenta cumprir um repertório completo. Tenta abrir um espaço pequeno, mas com nitidez. É um formato editorial — um artigo curto, lido até ao fim, contra um especial gigante que ninguém termina.
Voltar à pranayama sem turismo
Quase todas as professoras com quem falámos voltaram a dedicar uma parte das suas aulas a respiração consciente. Não falam em «libertação de chakras», nem prometem trazer paz. Descrevem o que fazem com palavras de jardineira: «Hoje vamos trabalhar inspirações de quatro tempos e expirações de seis. Vamos fazer isto cinco minutos, sentados, com as costas contra a parede.» É tudo. A pranayama, lentamente, deixou de ser tópico de curso de fim-de-semana e voltou a ser exercício diário, como passear o cão.
Em casa, os praticantes que entrevistámos confirmam o gesto. A Mariana, leitora desta revista, tem trinta e quatro anos, dois filhos pequenos e um trabalho na função pública. Faz três respirações lentas antes de sair da cama. Mais nada. Diz que é o que consegue. Diz que é suficiente. E acrescenta, com leveza: «Não quero que a prática me dê outra coisa para fazer. Quero que me devolva aquilo que já estava lá.»
O que os quadris pedem aos quarenta
A palavra «mobilidade» entrou no vocabulário dos estúdios portugueses devagar, sem ruído. Não veio de manuais americanos, veio de fisioterapeutas que começaram a partilhar salas com professoras de yoga. O Pedro Aboim, fisioterapeuta no Porto, fala-nos do assunto com prazer. «Quem chega aos quarenta e nunca trabalhou os quadris descobre um arco pequeno de movimento. Não é dor. É um arco curto. A yoga, quando bem feita, alarga esse arco devagar.»
Esta redação não acredita em soluções rápidas, e por isso não vamos prescrever sequências em forma de lista. O que constatámos é que a presença regular de uma professora atenta a articulações faz mais diferença do que qualquer rotina copiada. O leitor que insistir em praticar sozinho deve, pelo menos, ler com calma o artigo desta edição sobre mobilidade dos quadris — escrito por uma das nossas colaboradoras, com mapas anatómicos sem floreado.
Como decidimos não escrever sobre certas coisas
Combinámos, quando esta revista começou, três coisas: não publicar promessas, não usar números para impressionar, não copiar formatos vindos de redes sociais. Continuamos a cumprir. Por isso, esta edição não traz nenhum «desafio de sete dias», nenhuma «sequência para emagrecer», nenhum infográfico de antes e depois. Não temos nada contra essas coisas, mas não são o nosso ofício.
O nosso ofício é mais lento, e por vezes parece menos. É escrever textos que se conseguem ler até ao fim, entrevistar professoras com cuidado, voltar a publicar autores que já cá estiveram, manter uma biblioteca interna de práticas curtas. Se algum dia esta revista crescer, esperamos que cresça nesse sentido — em vez de se diluir em volume.
— Catarina Mendes-Tavares, editora-chefe
O que os leitores nos pediram esta primavera
Recebemos, ao longo dos últimos dois meses, cartas e emails. Muitos vinham de pessoas que querem começar e não sabem por onde. Outras vinham de quem pratica há anos e procura voltar à raiz. Algumas vinham de professoras a desabafar sobre o esgotamento de fazer aulas demasiado cheias. Lemos tudo. Respondemos quase tudo.
Desta correspondência saíram três decisões editoriais: vamos publicar mais textos para principiantes, vamos abrir uma série mensal com professoras independentes de várias cidades, vamos ter uma página fixa sobre prática em casa. Esta edição é o início desse compromisso. Se ler estas linhas e tiver algo a dizer, escreva para a redação. Garantimos leitura atenta.
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Reservamos consigo a sua primeira aula de yoga, sem compromisso
A nossa instrutora convidada conduz, todas as semanas, uma sessão experimental de 50 minutos para leitoras e leitores da Runrising. A primeira aula é totalmente gratuita, o tapete e os blocos são emprestados, e pode escolher entre os turnos da manhã, fim de tarde ou sábado calmo. Basta deixar o seu email e tratamos da reserva pela ordem de pedido.
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